A inteligência artificial está mudando de forma definitiva a maneira como usamos a internet e criamos conteúdo. Mas será que essa mudança será grande o suficiente para fazer da IA uma ferramenta capaz de matar a busca do Google? O tema foi abordado durante a palestra de Alexandre Kavinski, líder da IA da WPP no Brasil e um dos fundadores da i-Cherry durante o Spotlight, evento que comemorou os 20 anos do Olhar Digital.

“Isso vai mudar o mundo todo”, segundo Kavinski foi isso que ele pensou na primeira vez que usou uma IA generativa. Apesar de acreditar que ainda estamos apenas no começo e que, de fato, as IAs tem esse potencial, ele pondera que a revolução dessa tecnologia deve ser mais lenta do que muita gente pensa.

Mas será que chatbots, como ChatGPT, capazes de responderem perguntas (em sua função mais básica) já afetam as buscas do Google? Kavinski disse que a afirmação de que o maior buscador do mundo está vendo seu uso ser reduzido após o surgimento da IA é falsa.

“As buscas do Google cresceram 12% e o motivo é que as pessoas estão buscando mais e usando mais o celular para isso”, disse o especialista na palestra, mas ressaltando “não é que a IA não vá tomar esse lugar, mas ela não tomou ainda”.

Alexandre Kavinski
Alexandre Kavinski comentou o “fim do Google” (Imagem: João Pires de Oliveira Dias Neto)

Kavinski alerta para uma mudança muito mais relevante para as buscas do Google e que está em andamento desde 2014: a ferramenta que mostra os resultados direto na pesquisa, sem que o usuário precise clicar em um link. Isso não reduz o volume de pesquisa, mas muda a forma como as pessoas interagem com os sites na plataforma.

A função, inclusive, está sendo ampliada com o Gemini, IA do próprio Google. O especialista acredita que isso já mudou completamente a relação entre o SEO tradicional e o Google e muita gente nem percebeu. 

Para ilustrar, ele trouxe números. Os dados apresentados mostram que, em 2014, cerca de 40% das buscas do Google acabavam indo para sites, em 2019 isso caiu para 26%, mostrando que muitas buscas terminam com os resultados diretos exibidos pelo próprio Google.


Dá para criar conteúdo bom usando IA facilmente?

Kavinski trouxe para a palestra um teste que fez com as ferramentas de IA mais comuns atualmente. Ele usou alguns dos chatbots mais populares hoje para redigir um texto de marketing para o blog de um cliente, um tipo de texto que normalmente é escrito por um humano.

O objetivo era ver se um bom conteúdo poderia ser gerado facilmente. O resultado foi decepcionante, mesmo em plataformas diferentes, os textos foram muito parecidos entre si e, em sua maioria, genéricos.

“Tudo o que foi sendo gerado, não importava o quanto eu melhorasse meu prompt, era muito parecido”, disse. Kavinski então fez busca na internet, e percebeu que os textos sobre o tema presentes em sites também eram genéricos. “Então a IA, que é probabilística vai entregar algo muito parecido com o que ela viu na web”, completou “o nosso problema é muito maior do que a IA”.

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Para se chegar em um bom texto, Kavinski usou livros de referência e treinou as IAs para que criassem o conteúdo que ele desejava. Apesar do resultado finalmente ter atingido as expectativas, o trabalho talvez não tenha valido a pena.

“Mas não apertei um botão e pronto, deu um trabalho danado isso”, afirmou. Kavinski ainda lançou a dúvida se o tempo gasto por um conteúdo escrito apenas por um humano não seria o mesmo.

Até agora não encontrei uma ia que faça mais de um conteúdo original com qualidade

Alexandre Kavinski

O futuro da IA

Apesar dos testes frustrantes, Kavinski destacou que as IAs generativas estão apenas começando e a revolução, ele acredita que os bancos de dados e os agentes de IA é quem realmente vão fazer a diferença no futuro.


“O que vai acontecer vai ser ainda mais impactante eu acho que o que vai acontecer conosco em termos de conteúdo é que as empresas vão ter ali no centro todos os seus dados, coisa que pouca gente tem hoje, e quando você tem isso, não importa onde o usuário esteja, ele vai poder receber algo personalizado”, explicou.

Alexandre Kavinski
Alexandre Kavinski e o futuro da IA (Imagem: Reprodução/Spotlight)

“A interface, pode ser uma janela de chat, pode ser um app de celular, mas o conteúdo que será gerado depende diretamente do contexto do usuário”, completou. Então a IA vai mudar o resultado usando o banco de dados e vai trazer um conteúdo específico para a demanda daquele usuário

“Isso pode ser uma página da Web criada na hora, uma mensagem e até mesmo um software criado na hora on-demand para resolver um problema”, completa. Esse futuro, entretanto, depende que as empresas saibam criar e usar seus bancos de dados e adaptem IAs para sua própria realidade.

A conclusão geral para Kavinski serve de alerta: “não estamos prontos para criar conteúdo bom de maneira muito prática com a IA”.

Sobre o Spotlight

Como a inteligência artificial vai mudar o futuro do mercado? O evento Spotlight, que celebrou os 20 anos do Olhar Digital, trouxe 30 especialistas renomados do setor para responder essa pergunta em diferentes frentes. As palestras e painéis abordaram desde as melhores práticas na geração de conteúdo até técnicas para monetizar seu trabalho.