A queda recente que liquidou mais de US$ 500 bilhões da capitalização total do mercado de criptomoedas está relacionada a dois eventos que afetaram diretamente o Ethereum (ETH) e a Solana (SOL).
O hack da exchange de criptomoedas Bybit em 21 de fevereiro resultou no roubo de US$ 1,5 bilhão em ETH. O maior incidente de segurança da história do mercado de criptomoedas gerou temores de que grandes quantidades do ativo fossem despejadas no mercado pelo Lazarus Group, grupo de hackers norte-coreanos a quem foi atribuído o ataque.
Além disso, membros da comunidade cripto passaram a discutir a possibilidade de um roll back na Ethereum para reverter o hack, fazendo o estado da rede retroceder ao momento anterior ao incidente.
O FUD (medo, incerteza e dúvida), associado às condições mais amplas do cenário macroeconômico, com inflação em alta nos EUA e a guerra comercial do presidente Donald Trump, contribuíram para uma queda de 24% no preço do Ether nos últimos sete dias, de acordo com dados da CoinGecko.
Gráfico ETH/USD. Fonte: CoinGecko
A crise na Solana vem se desenrolando em estágios graduais. Ironicamente, teve início com o lançamento das memecoins TRUMP e MELANIA, que levou o preço do SOL à máxima histórica de US$ 293,31 em 19 de janeiro.
Menos de um mês depois, em 14 de fevereiro, ocorreu um novo lançamento envolvendo chefes de estado. O apoio do presidente argentino, Javier Milei, à LIBRA, um token obscuro lançado pelos mesmos empreendedores envolvidos na criação da MELANIA visando extrair liquidez do mercado às custas do varejo, deu início a uma espiral de baixa que resulta em um prejuízo acumulado do preço do SOL de 43,3% nos últimos 30 dias.
Em meio ao medo extremo que tomou conta do mercado nos últimos dias, atingindo patamares equivalentes ao da falência da FTX, que marcou o fundo do mercado de baixa em 2022, analistas avaliam as perspectivas futuras para o ETH e o SOL.
Otimismo com o Ethereum
Kim Young Ju, CEO da plataforma de análise de dados on-chain Crypto Quant, apontou quatro razões para justificar um viés otimista quanto ao Ether em uma eventual recuperação do mercado em uma postagem no X.
Em primeiro lugar, Ju destacou que o hack da Bybit, por si só, não resultou em uma pressão vendedora massiva imediata sobre o ETH. A queda subsequente foi fruto de um movimento mais amplo de mercado.
O executivo também avalia que os avanços regulatórios nos EUA, com o recuo da SEC (Comissão de Valores Mobiliários) em diversos processos movidos contra entidades do setor, a aprovação iminente de novos ETFs e a discussão de projetos de lei no Congresso, o Ether está bem posicionado para liderar uma eventual “altseason dos ETFs.”
Além disso, a rede da Ethereum concentra 56% do mercado de stablecoins. “Com Trump flexibilizando a regulação das criptomoedas, mais empresas poderão adotar stablecoins e contratos inteligentes baseados na Ethereum em 2025″, afirmou Ju.
Por fim, a análise destaca que as baleias aproveitaram a queda recente para entrar em modo de acumulação:
“Os saldos das carteiras que detêm 10K a 100K ETH cresceram 24% em relação ao ano passado, acumulando principalmente das carteiras com menos de 1K ETH.”
No entanto, com a queda de 10,5% nas últimas 24 horas, a cotação do ETH está abaixo do custo base desses endereços de acumulação, que é de US$ 2.199. No momento em que este artigo foi escrito, o par ETH/USD está cotado a US$ 2.135, de acordo com dados da CoinGecko.
Pessimismo com a Solana
Em uma análise publicada no X, Travis Kling, fundador do fundo de hedge de criptomoedas Ikigai e criador da tese do niilismo financeiro, atribui a queda de mais de 50% do SOL em relação à máxima histórica ao iminente desbloqueio de tokens vendidos pelo espólio da FTX durante o processo de falência da exchange.
Gráfico diário SOL/USD, destacando a queda de mais de 50% após máxima histórica. Fonte: Travis Kling (X)
Em 1º de março, 11,2 milhões de unidades de SOL estarão disponíveis para negociação. Parte da queda recente se deve a um movimento de antecipação do mercado, segundo Kling:
“Os compradores do SOL da FTX acumulam um lucro não realizado significativo, mesmo após essa correção de preço. Não seria nada surpreendente se grande parte desses 11,2 milhões de SOL fossem vendidos em massa via OTC.”
No entanto, o fato de o topo ter sido atingido na esteira do lançamento de TRUMP e MELANIA evidencia a dependência da Solana em relação ao mercado de memecoins. O colapso desse mercado após uma sequência de “golpes de estado” chancelados pelos presidentes dos EUA, da Argentina e até da República Centro Africana dizimaram a credibilidade e o interesse dos investidores em memecoins, afirma Kling:
“Bem, nas últimas cinco semanas, tivemos TRUMP/MELANIA. Depois, a República Centro-Africana. Depois, o cachorro de Changpeng Zhao. Depois, Dave Portnoy. E por fim, o fiasco de Javier Milei. Tudo isso obviamente, ridiculamente extrativista. Sem sentido. Niilista. Constrangedor. 100% ruim. Nada de bom. O cassino é extremamente prejudicial aos seus clientes. Os jogos que ele oferece estão literalmente matando seus clientes.”
Kling afirma que, no atual ciclo de alta, a principal tese para justificar o investimento no SOL é lucrar com o ‘“Cassino das Memecoins”, sem o risco de comprar diretamente esses ativos. Após os últimos acontecimentos, Kling questiona a capacidade de o ecossistema encontrar uma nova narrativa capaz de gerar demanda imediata para o SOL.
Mesmo o provável lançamento de ETFs spot de SOL, um potencial catalisador positivo podem não corresponder à demanda esperada, conclui Kling:
“Há apenas dois meses, eu teria dito que haveria uma demanda significativa por ETFs de SOL. Mais do que por ETFs de ETH… Mas isso pode estar mudando em tempo real.”
Conforme noticiado pelo Cointelegraph Brasil, além do prejuízo de mais de 50% do SOL desde as máximas históricas, a Solana registrou uma queda de 40% no valor total bloqueado (TVL) em protocolos DeFi (finanças descentralizadas).
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